01/02/2021 às 10h56min - Atualizada em 01/02/2021 às 10h56min

“Entre Tapas e Queijos”

Lutero Barbará

Lutero Barbará

Diretamente de Barcelona - Espanha.

Lutero Barbará
- Papo Sabor

Por mais exatas e belas que possam parecer as palavras e as descrições estas nunca darão conta da realidade, pois nada substitui o pulsar dinâmico de uma cidade ou de um país. Não é uma bandeira nem fronteiras rabiscadas em um mapa que definem uma nação. Um país ou uma região são representados pelas suas gentes, seus valores, hábitos e costumes passados de uma geração à outra através de rituais narrativos, sejam estes pagãos ou religiosos. Minha intenção neste território que me acolheu é observar e escutar atentamente estas expressões narrativas, nas suas mais variadas matizes, e tentar inspirar viajantes ao descrever com Sabor o mosaico vivo de uma Cultura.
  
A Espanha é uma espécie de colcha de retalhos de antigos reinos medievais que não deixa de dar voltas em si mesma quando se trata de definir sua inequívoca identidade como nação. Uma Espanha unificada é demasiado idealismo, até mesmo para Don Quixote. Mas existe uma história gastronômica que une todas as regiões deste país ibérico desde os Pirineus, no norte, até a Andaluzia, no sul. Essa narrativa unificadora é a história das Tapas 

Uma maneira criativa e informal de servir os mais variados tipos de tira gostos... cheia de possibilidades e combinações. E parece que tudo começou assim: Conta-se que uma vez em Cádiz o rei de Castilla y León Alfonso X, o Sábio (1249–1284) pediu em uma bodega um jarro de vinho. O funcionário do estabelecimento como um bom empregado pró ativo - diríamos nos dias de hoje! – colocou um pedaço de presunto/“jamón” para tampar/tapar a boca do jarro com a intenção de que nenhum grão de areia ou pó estraga-se a bebida do soberano. O rei, sábio que era, acabou tomando o vinho e comendo o presunto.

À partir dai por decreto de vossa majestade toda bebida deveria vir acompanhada de uma porção de comida para beliscar. E a “Tapa/tampa” comestível assumiu um protagonismo inesperado. Uma solução criativa de um ilustre desconhecido acabou coroando por causalidade a forma mais popular de se comer em toda Espanha. Embora as tapas sejam mais um conceito informal de servir petiscos existem as mais famosas que podem vir em porções pequenas ou em forma de “pinchos”(ideia Basca!), que são palitos cravados como um estandarte para demarcar saborosos territórios.

A “Tortilla de patatas” pode ser apresentada das duas maneiras e costuma ser feita com ovos, sal, batatas, azeite de oliva…e cebola à gosto; as “patatas bravas” são batatas fritas cobertas com molho vermelho apimentado; o amarelo da batata e o vermelho do molho acabam lembrando as cores da bandeira espanhola e também da Catalunha, “por supuesto!

Nas mesmas batatas existe a variação ou o acréscimo da famosa “salsa alioli”, utilizando os onipresentes ingredientes da cozinha espanhola; Azeite de oliva e alho. Os queijos  oriundos de distintas comunidades autônomas também são servidos como tapas e existem muitas variedades; o Manchego é típico de Castilla y la mancha, o Idiazábal vem do País Basco, el Roncal é de Navarra, el Mahón é das ilhas baleares, e el Majonero também vem das ilhas, mas neste caso das Canarias. As olivas, são as nossas azeitonas porém a qualidade…bom, deixa prá lá! Elas costumam ser bastante populares e são servidas em conserva e recheadas com anchovas ou pimentão. Os “Calamares”, ou lula empanada, fritos no azeite de oliva, servidos em forma de anéis, são as jóias da coroa.

Os “huevos rotos” ou huevos estrelados, são ovos fritos com a gema bem mole colocados sobre um colchão de tiras de Jamón com batatas fritas. Quando o ovo é rompido a gema se derrama e empapa os ingredientes que lhe servem de cama; despertando assim a gula de qualquer mortal. Um pedaço de pão costuma ser passado depois para limpar os vestígios do pecado. O “pan tumaca” ou “Pa amb Tomàquet”, nasceu por estas bandas da Catalunha e é como o nome sugere; pão, tomate, azeite de oliva e sal, sempre com o alho por perto como opção.

Seria crime de “lesa majestade” esquecer de quem deu origem a essa forma peculiar de disfrutar dos prazeres da mesa e da barra; Cortado em tiras diáfanas com precisão cirúrgica o “Jamón Ibérico” é o rei das iguarias, sendo o mais solicitado pelo séquito de turistas estrangeiros, também conhecidos como “Guiris.”

E além de ser famoso e saboroso  ele ainda nos deixa com gosto de história na boca, pois nos remete ao sábio Alfonso X...e também ao ilustre anónimo que perdeu uma grana em direitos autorais. Ainda se poderiam citar as “croquetas de Jamón” e bacalhau, os “pinchos de morcilla e chorizo” , as gambas, os “mejillones”...e qualquer tipo de frutos do mar. Enfim infindáveis são as variações destes sabores combinados e servidos de forma fragmentada.

Tapear é uma experiência andarilha e também grupal. Costumasse sair com amigos, geralmente muitos...e ruidosos! E por melhores que sejam as tapas do bar ou da bodega aonde se inicia o recorrido ninguém termina aonde começou. “Ir de tapas”, sair para tapear, é uma espécie de nomadismo gastronômico. Este nomadismo grupal das tapas espanholas acaba fomentando o turismo, pois todo viajante ou turista se sente à vontade quando pode mimetizar-se ou misturar-se na natureza e no cotidiano de uma cultura.. Não é à toa que a Espanha é um dos destinos turísticos  gastronômicos prediletos.
 
Embora eu tenha meus bares e bodegas, compondo um inventário sentimental do que vivi até aqui, não vou mencionar nenhum lugar específico de Barcelona ou de outras cidades espanholas porque desconfio dos guias de viagem, assim como suspeito de qualquer “receita perfeita” para se viver. Acabam sendo mais do mesmo, roubando um pouco do frescor da experiência.

Está bem ter algumas sugestões ou ingredientes básicos, mas o sabor que damos ao nosso caminhar é intrasferível. Minha intenção não é indicar; é inspirar! “Caminante no hay camino...se hace camino al andar “, como diria o Grande poeta espanhol Antônio Machado.
 
 
 Por:Lutero Barbará
 Barcelona - Espanha. 
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