18/02/2021 às 22h58min - Atualizada em 18/02/2021 às 22h58min

O Clube do Picadinho

Lutero Barbará

Lutero Barbará

Diretamente de Barcelona - Espanha.

Lutero Barbará - Papo Sabor
Foto: Divulgação
“No início, não era apenas o prazer de comer, beber e estar juntos que nos unia. Havia a ostentação, sim. Depois que trocamos o picadinho do Alberi por coisas mais finas, nossos jantares passaram a ser rituais de poder, mesmo que não soubéssemos então. Podíamos comer e beber bem, por isso comíamos e bebíamos do melhor e fazíamos questão de ser vistos e ouvidos no exercício do nosso privilégio. Mas também não era só isso. Não éramos só filhos da puta. Éramos diferentes, e festejávamos a nossa amizade e a nossa singularidade naquelas celebrações barulhentas de um gosto comum. Tínhamos um discernimento superior da vida e dos seus sabores, o que nos unia mesmo era a certeza de que nossa fome representava todos os apetites que um dia nos dariam o mundo.”
 
No delicioso livro “O clube dos anjos - a gula”, da coleção “plenos pecados” Luiz Fernando Veríssimo escreve à respeito de um grupo de amigos que se reunia desde a juventude para celebrar o gosto pela gastronomia e pela vida. Eram dez amigos que se encontravam há vinte um anos; quase todos já na meia idade, quase todos mais ou menos ricos...e de perto quase nenhum normal, como diria Caetano. O prato de entrada de Veríssimo é uma salada deliciosa sobre as reflexões de culpabilidade do escritor Daniel –que é narrador e personagem - quando imagina ser culpado pelos crimes que ele inventa na ficção; “O crime inventado é pior do que o crime real. Pois se o crime real pode ser acidental, ou fruto de uma paixão momentânea, não há notícia de um crime fictício que não tenha sido premeditado.”

Daniel é um gordo, grande, espaçoso, meio desleixado chamado pelos funcionários da importadora de vinhos de Dr. Daniel. Ele não era Doutor ,mas era chamado assim por ser rico. Pois na tal loja de vinhos, entre uns Saint-Estèphe, e uns Bordeaux ele acaba encontrando um misterioso gourmet de nome Lucídio, que se aproxima intencionalmente e vai puxando papo. Daniel, sem nenhuma desconfiança vai descrevendo e dissecando a trajetória de vida de todos os integrantes do grupo, desde o nascedouro no bar do Alberi - quando a referencia gastronômica deles era o picado de carne com farofa e banana frita -, até o desgosto e a apatia, por causa da morte do mentor intelectual do Clube. Se aproveitando da verborragia de Daniel, que assim como tragava vinhos cuspia palavras, o gourmet misterioso se propõe a recuperar o gosto e o tesão pelas reuniões que já agonizavam. 
 
Lucídio mostra a Daniel uma escama de peixe fugu, e diz que pertence a uma sociedade secreta de voluntários que se reúne a cada ano  em Kushimoto, no Japão, para provar o fugu recém pescado. Este peixe é extremamente venenoso e exige um preparo minucioso de chefs especialistas  que podem levar até dez anos de treinamento. Se o veneno contido no fígado desta iguaria chegar a sua saborosa carne, o comensal voluntário pode morrer em questão de minutos. Existe fila de espera para este voluntariado Kamikaze, - “eu esperei sete anos!” – diz um orgulhoso Lucídio para um  estarrecido Daniel. “Não existe nada parecido com o sabor do fugu cru no mundo, Daniel E o prazer de comer o fugu é triplicado pelo risco da morte. A perspectiva de morrer a qualquer momento, em segundos, produz uma reação química que realça o sabor do fugu.

Você pode comer o fugu normalmente, no Japão, preparado por mestres especializados, com um risco mínimo. Mas só em Kushimoto, uma vez por ano, se come o fugu com uma real possibilidade de não sobreviver ao primeiro pedaço. Não existe outra experiência gastronômica igual. Por isso a sociedade é secreta. É o clube de gourmets mais exclusivo do mundo.”

Fascinado pela história de Lucídio, Daniel vê uma oportunidade de recuperar o desejo e o apetite dos velhos confrades do Clube do picadinho. Para tanto ele propõe ao grupo que os próximos jantares serão preparados por um gourmet desconhecido, que não sairá da cozinha. O primeiro jantar tem como prato principal “boeuf bourguignon”, clássico francês, que era a comida predileta do primeiro  defunto. E assim Daniel vai relatando os jantares, a exaltação ao chef desconhecido, a recuperação da amizade e do gosto...e a morte de um por um dos seus amigos. Não, Isto não é um “spoiler!” Como quem serve canapés deliciosos de entrada em um jantar que promete ser memorável, Daniel o bonachão,  deixa bem claro quem é o culpado, já nas primeiras páginas.

O livro, com o humor incomparável de Luiz Fernando Veríssimo, trata de apetites, desejos, paixões, amizade...e destino; “Nenhum deles pode resistir a tentação. Sentar -se à mesa com os amigos, saborear seu prato preferido e se entregar ao prazer de comer, louca e apaixonadamente. Depois? Depois a morte, mas isso só parecia acentuar, naquele instante , a delícia de sabores irrecusáveis, o paladar em estado de exaltação, a benção de um destino escolhido.”
 
Bom apetite e boa leitura!


Lutero Barbará
Barcelona - Espanha. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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