23/03/2021 às 09h34min - Atualizada em 23/03/2021 às 09h34min

O Universo, o Sol e as Estrelas

Costumamos pensar que as distâncias não nos dão a exata precisão para definir aquilo que observamos ou sentimos.

Lutero Barbará - Papo Sabor
É certo. Porém também é verdadeiro que o distanciamento é revelador quando nos dá uma perspectiva enriquecedora por afastar dos olhos e do coração aquilo que, de tão perto, acaba turvando a visão e confundindo os sentimentos.
 
Para escrever sobre a cerveja necessito deste interessante exercício de distanciamento, porque tenho uma relação intima, duradoura e fiel com esta delícia dourada. Falar a respeito da cerveja é escrever a biografia de uma companheira, uma amante, que de tão próxima chega a embaçar a visão e confundir as emoções. Sendo assim não esperem do meu olhar uma neutralidade científica...e muito menos moderação!
 
Não é o mesmo dilema do ovo e da galinha, mas existe uma curiosidade imensa para saber quem nasceu primeiro; a nossa protagonista ou o seu irmão, aristocrata e arrogante; o vinho. Os achados arqueológicos não nos dão muita certeza, mas nos fragmentos dos recipientes de armazenamento existem vestígios de que por volta do ano 8.000 ac. já se fabricava vinho. Porém a cerveja era guardada em peles de animais, tecidos, madeira; ou seja produtos orgânicos que por serem perecíveis desapareceram como prova irrefutável de sua antiguidade.
 
Se sabe que as duas bebidas alcoólicas mais antigas da humanidade são filhas da agricultura(10.000ac.) e do acaso. Do acaso por que o processo de fermentação espontâneo se deu pela negligência com algum alimento (grãos ou frutas) deixado exposto ao Sol e a chuva.  
 
Desta forma quem esqueceu a uva ao relento descobriu o vinho e quem esqueceu a cevada...merece um beijo e um abraço!!
 
A cerveja é citada várias vezes na epopeia de Gilgamesh –a narrativa mais antiga de que se tem notícia, (7.000ac.) - como uma “bebida extraordinária e um elixir da amizade compartilhada.” Ainda na região da Mesopotâmia a mesma cultura Suméria (3.200ac.) inventou a primeira forma de escrita cuneiforme, de finalidade contábil e a cerveja já aparece registrada em entradas e saídas.

 Foto:divulgação

Uma contribuição civilizatória imensa na narrativa, nas relações sociais, na criação da escrita e na economia. E o vinho?! Este, com seu “in vino veritas”, só nos faz dizer a verdade; o que pode ser constrangedor no dia seguinte, se você passa do ponto...na bebida e na sinceridade.
 
Brincadeiras à parte nossa civilização Greco-Romana/judaico-cristã, quase sempre considerou o vinho sagrado, divino, destinado ao paladar sofisticado, nobre e aristocrático enquanto que a cerveja, embora fosse moeda e alimento em distintas culturas, foi relegada à categoria de bebida popular, pagã e bárbara.
 
Nos últimos tempos, na Espanha e no Brasil, está acontecendo uma reavaliação do Status da cerveja como forma de redesenhar a imagem do seu consumo, associado meramente, a estereótipos populares como praia, calor e futebol. É como se olhássemos por um telescópio o surgimento de um “novo” universo, que poderíamos chamar de universo “Craft” – A arte do ofício artesanal.
  
O “Big Bang ” das cervejas artesanais vem reivindicar um espaço de degustação que por tradição foi destinado exclusivamente ao vinho. A intenção dos mestres cervejeiros é enriquecer nossa experiência sensorial nos guiando por galáxias desconhecidas e planetas inexplorados de aromas e sabores.
 
Quando se reconhece matizes de gostos amargos, azedos, doces e salgados é possível dialogar com queijos, carnes, frutas, mariscos e embutidos de forma harmônica e equilibrada, seja por contraste ou semelhança. Essa relação na Espanha se chama “Maridaje”; maridar é “casar” ou combinar uma bebida e uma comida com base nas suas características, para potenciar ambos elementos.
 
Nada mais adequado para o país das “tapas” aonde nenhuma bebida sofre de solidão. Na estreita relação com minha bebida predileta nenhum lugar me proporcionou tantos encontros inesquecíveis como a “Plaza del Sol”, no bairro de Grácia. Ali pude me aproximar um pouco deste universo das artesanais, sem perder de vista a vocação popular e democrática deste líquido precioso. Orbitam ao redor da praça, bares, restaurantes, cafés e a “Bodega del Sol;” aonde se pode encontrar uns 500 rótulos artesanais, dos quais 300 são espanhóis.
 
Na questão custo benefício as IPAS (Indian Pale Ale) são as mais vendidas e o destaque vai para a “Imparable”, uma cerveja IPA basca de corpo médio, frutada, fresca com grande protagonismo do lúpulo, tanto em sabor como em aroma.
Nos bares as cervejas - também chamadas de “birras”- são tiradas do grifo/torneira com uma destreza apaixonante; ver aquela cascata cremosa se transformar em um lago translucido  dourado é beber com os olhos, uma espécie de preliminar antes do gozo.
 
As cervejas podem vir como “caña”, copa ou jarra e geralmente a Estrella Damm domina, tanto no grifo/torneira como em latas ou medianas – garrafas de 330ml. Mas também se bebe Estrella Galícia, Moritz, Moritz Epidor, Voll Damm, Heinneken e outros rótulos internacionais.
 
Uma curiosidade daqui que não acontece ai é a popularidade da “clara”, uma mistura de cerveja com refresco de limão. Mas confesso que meu maior prazer na praça do Sol é sentar no chão, ao relento, e tomar uma constelação de Estrellas Damm ou Galícia vendidas pelos “páquis”, apelido carinhoso dos paquistaneses que vendem suas latas até a chegada da polícia. Os “páquis” anunciam “Cerveza beer” serpenteando entre dezenas de pessoas sentadas em círculos no chão como se fossem um conselho tribal. Esta amistosa informalidade transgressora acabou roubando meu coração...e minhas moedas de 1euro. Acredito que a cerveja nunca vai perder tal aura de sociabilidade, porque faz parte da sua trajetória evolutiva.
 
Existem no mundo mais ou menos 120 estilos de cerveja, oriundas de 4 escolas fundamentais; a alemã, a belga, a inglesa e a americana, e a fórmula da felicidade continua sendo o malte, a água, o lúpulo e a levedura.
 
Mas afinal de contas quem nasceu primeiro, o vinho ou a cerveja? Qual é a melhor forma de se apreciar a cerveja; uma “maridaje” perfeita ou compartilhar com amigos, sem importar o rótulo?
 
Friedrich Nietzsche chamava de “vontade de verdade” esta nossa obsessão pela busca do absoluto, da verdade única que leva à perfeição. Mas realmente importa saber quem nasceu primeiro, qual é a cerveja perfeita, qual a forma “correta” de se apreciar uma bebida?
 
A resposta é fácil se fazemos o humilde exercício do distanciamento de nós mesmos. Basta levantar a cabeça para contemplar o firmamento e sua diversidade de planetas, estrelas, e estrelas fugazes. Astros que nos dão a real dimensão da importância de nossas perguntas.
 
Aventurar-se pelo espaço infinito e refinar o paladar será sempre bem-vindo, desde que não desloque o centro e o sentido do Universo que é beber da Amizade e celebrar a Vida.


Assita o vídeo - Em busca da cerveja perfeita? 


  
 Lutero Barbará
Barcelona - Espanha. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Diretamente de Barcelona - Espanha.

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