27/04/2021 às 13h59min - Atualizada em 27/04/2021 às 13h59min

“A Viagem “

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio quanto o ato de viajar.(...)

Lutero Barbará - Barcelona
Ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos(...) Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir. A arte de viajar (...) poderia contribuir, de forma modesta, para uma compreensão daquilo que os filósofos gregos chamavam lindamente de Eudaimonia , ou desabrochar humano". - Alain de Botton -
 
Sei que é um lugar comum a comparação da Vida com uma viagem,  porém dada a semelhança do nascimento no início e a morte sendo destino inexorável como não comparar nossa passagem por este mundo com uma jornada de princípio meio e fim? Pois no princípio, na aurora dos tempos, durante 2,5 milhões de anos, nós humanos éramos todos nômades, caçadores-coletores que depois  fomos domesticados pela agricultura. A necessidade de cuidar da colheita acabou criando os assentamentos, as cidades e a civilização se enraizou.

E “num piscar de olhos” (aprox. milhares de anos) passamos do nomadismo ao sedentarismo. Porém mais de 90% de nossa história evolutiva se deu sem residência fixa. Logo, por estar impresso em nosso DNA, viajar passou a ser uma necessidade psicológica humana; tanto de maneira física/espacial, quanto abstrata e imaginativa. Sem esta última, por exemplo, não existiria nenhum monumento ou obra arquitetônica para ser visitada. E tampouco sobreviveriam narrativas de deuses e mitos que, de certa forma, costuraram a civilização.
 
 Portanto quando você se sentir atraído pelo demônio da viagem, desejando partir para conhecer terras distantes ou sair do concreto e se aproximar da natureza, isto pode ser um resquício do nomadismo ancestral. Esta força atávica que nos move em busca de sensações de liberdade que o cotidiano nos nega em sua estrutura repetitiva. Existem variados impulsos para arrumar as malas; escapar da rotina, diversidade cultural, conhecer novos lugares e pessoas, aventuras amorosas, saborear distintos gostos, odores, surpreender-se, encontrar-se, deixar-se, buscar  a si mesmo, escapar de si mesmo, enfim.... Muitas motivações justificam esta ânsia de botar o pé na estrada que nos toma de tempos em tempos.
 
Fazer turismo é a primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em viajar. Portanto é bom ter em mãos um mapa das origens do turismo e do que concebemos como ideia de viagem, ainda hoje. O turismo moderno tem como “avô” o “Grand Tour” que os jovens aristocratas ingleses e alemães faziam como parte de sua formação clássica no final do sec. XVII. Influenciados pelos filósofos empiristas ingleses - aonde a experiência é a origem do conhecimento - os nobres enviavam seus rebentos para uma viagem meridional à França e a Itália, principalmente.

O propósito era beber água da fonte conhecendo as belezas renascentistas e a herança cultural da antiguidade clássica. Este itinerário - que tinha algo de rito de iniciação - durava meses e até anos. Os jovens eram acompanhados por um séquito de criados e de um tutor para controlar as tentações mundanas que se apresentassem  ao largo do caminho. No auge do “Grand Tour” houve uma explosão de escritores, poetas, pintores...devido a efervescência deste caldeirão de sensibilidades que dispunham do tão sonhado binômio; Tempo e dinheiro.

as mesmo a rapaziada tendo os seus momentos “relax” era uma viagem formativa e não de prazeres. Além do mais os meios de transporte eram escassos e ainda não se tinha inventado nem o conceito de transporte público. O tour era grande...mas para poucos! Foi somente nos séculos XVIII e XIX devido a Revolução Industrial e o surgimento de uma burguesia endinheirada que as viagens se tornaram mais acessíveis. Se multiplicaram os trens e barcos e já não se necessitava tanto tempo de deslocamento...Paris era logo ali. Milão, Florença e Roma estavam na volta da esquina!!

Mas fora a economia no tempo o que realmente impulsionou a popularização da viagem foi o desejo da recém nascida  burguesia imitar os  “bem nascidos” aristocratas. A classe burguesa tinha sentimentos contraditórios em relação aos nobres; ao mesmo tempo que olhavam desconfiados a ociosidade destes, admiravam em segredo  seu refinamento estético e, sendo assim, acabavam copiando seus hábitos e costumes. Foi então, de forma mimética, que a “viagem ilustrada” passou a ser denominada “viagem romântica.” A finalidade agora era outra; desfrutar dos prazeres da boa mesa; dos bons vinhos, da gastronomia de cada região; Admirar e contemplar as paisagens, monumentos e lugares históricos. Ou seja, mais ou menos o turismo atual. A “viagem romântica” ainda permanece em nossas mentes quando escolhemos os destinos, mas a chispa que se acende com o desejo de viajar já busca outro norte, e está mudando consideravelmente.
 
 
"O que é uma jornada? Uma jornada não é umas férias. Não é uma viagem. É um processo. Uma descoberta. É um processo de autodescoberta. Uma jornada nos coloca frente a frente com nós mesmos. Uma jornada nos mostra não apenas o mundo, mas como encaixamos nele. A pessoa cria a jornada ou a jornada cria a pessoa? A jornada é a própria vida. Aonde a vida o levará?" Estes questionamentos e afirmações embora pareçam sair de um devaneio filosófico são na verdade a publicidade de uma luxuosa grife francesa que dá um giro sofisticado nas necessidades humanas. A marca já não vende somente produtos para a viagem, ela provoca o desejo pela experiencia do viajar.

Devemos ao ato de viajar esta nova perspectiva de consumo. Qualquer apreciador da boa mesa sabe que o tempo em que comíamos e bebíamos para sobreviver, ficou para trás. Hoje, na gastronomia, se busca uma “experiencia” ; a viagem da descoberta, uma exploração de possibilidade que provoque a explosão dos sentidos. E tal experiência necessita um relato com referencia no tempo. Um bom vinho é uma Odisseia narrada e engarrafada por Homero. Um prato sofisticado traz na bagagem a história dos grãos, a revolução agrícola, a coleta de frutos e a caça dos nossos ancestrais nómades. Quando algo chega à mesa deveria ser o retorno de Ulisses a Ítaca para degustar do saboroso abraço de Penélope.
 
A passagem do tempo é uma ilusão. O tempo não passa como costumamos dizer. O tempo permanece imóvel e eterno...Quem passa somos nós! E cada vez existem mais viajantes suspeitando que a Vida talvez não tenha finalidade ou propósito intrínseco. A viagem em si é o destino, ela é causa e consequência  de si mesma. Como escreveu Goethe; “Sim, nada mais sou do que um viajante, um peregrino sobre a terra! E você é alguma coisa mais do que isso?“  O ocaso do Sol, o surgimento da lua, o fim do dia o nascimento da noite, a luz e a escuridão, as alegrias e as tristezas, o riso e o choro...a morte e a Vida. Esta é a viagem em si...chegadas e partidas. Caro viajante quando sua Alma não couber mais no recipiente que a contém...é hora de partir!!Em busca de nada, mas a espera de tudo!!!

Lutero Barbará
Barcelona - Espanha. 

 
 
 

 
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Lutero Barbará

Lutero Barbará

Diretamente de Barcelona - Espanha.

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