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17/07/2021 às 11h05min - Atualizada em 17/07/2021 às 11h05min

Córdoba e os deuses do tempo!

Lutero Barbará

Lutero Barbará

Diretamente de Barcelona - Espanha.

Lutero Barbará - Papo Sabor
Os Gregos tinham dois deuses para o tempo; um era Cronos, o da temporalidade, propriamente dita. Deste deus derivam as palavras  cronômetro, cronograma e cronologia. Porém os gregos também tinha outra divindade para o tempo chamada Kairós. Este outro, quando por fortuna aparece, nos livra momentaneamente da tirania de Cronos. Kairós é um lapso no tempo, um momento mágico aonde algo importante acontece...um instante que vira eternidade pela intensidade da experiência vivida, e assim perdemos a noção do tempo linear.

Quando Kairós surge, Cronos se retira! Córdoba é uma destas cidades aonde temos a sensação de que o tempo permanece imóvel e quem passa somos nós, filhos de Cronos! Esta antiga senhora - fundada “Corduba”, pelos romanos em 169 a.c – viu nascer e passar por suas ruas labirínticas empedradas figuras como Sêneca, Averroes e Maimónides; altos expoentes de sabedoria das culturas latina, islâmica e judaica, respectivamente.

Pode se dizer sem exageros que nos seus tempos de glória Córdoba foi a capital do mundo ocidental. E ela foi realmente a capital de Al-Ándalus, os territórios mulçumanos conquistados pela dinastia Omeya na península ibérica. De Al-Ándalus provém o nome Andalucía, a comunidade autônoma espanhola no extremo sul que se debruça sobre a África , e é banhada pelo Mediterrâneo e o oceano Atlântico. Córdoba, Granada e Sevilla são as principais cidades da Andalucía. Porém é Córdoba a única que ostenta 4 patrimônios históricos da humanidade: a Catedral/Mesquita de Córdoba ; o centro histórico;  a Festa dos Pátios ; e “Medina Azahara.

A ponte romana e a  Mesquita Catedral, 

Conhecida também como “cidade das três culturas” Córdoba é um lugar aonde convivem harmoniosamente o engenho e a beleza das três grandes religiões monoteístas; o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. Entre outras civilizações elas deixaram aqui seu legado arquitetônico e de costumes, ainda que em épocas distintas.

Talvez o encanto  de Córdoba seja a preservação desta simbiose entre mesquita, catedral, sinagoga, pontes romanas, banhos árabes, muralhas, fontes, pátios...uma convivência milagrosa, dada a conhecida incapacidade de diálogo entre as civilizações da “verdade” única. Em sua cronologia a cidade nos mostra um passado em justaposição cultural, mas também oculta um  certo anseio futuro por tolerância e compreensão.

Na “plaza de las Tendillas” já se nota que o tempo aqui transcorre de maneira distinta. No alto de um edifício, um relógio criado em 1961  badala o passar das horas em acordes de guitarra flamenca. Depois de escutar surpreendido “por quem os sinos soleam” fui levado por mãos cordobesas para conhecer a “plaza de la corredera”, uma “plaza mayor” quadrangular que foi utilizada para as mais variadas festas populares, inclusive a tradicional corrida de toros.

Hoje acolhe em seu interior “terrazas” de bares e restaurantes. Entre vinhos sagrados e cervejas pagãs fui apresentado ao “Dr. Flamenquín” e ao “Sr. Rabo de Toro”, duas eminências pardas da gastronomia cordobesa.

O primeiro é uma espécie de rocambole empanado com finíssimas tiras de filé de lombo de porco e recheado com jamón serrano e toicinho ibérico. É provar e sair dançando e girando por entre as mesas, como um Dervixe mulçumano.
Flamequim

O segundo é uma carne de panela literalmente do rabo do touro. Em seu preparo estão o alho poró, alho, pimentão, cebola, cenoura, tomate e no final caldo de carne e vinho. Por estar pegada ao osso o tempo de cozimento é fundamental, para que a carne se desfie com o garfo. Outra maravilha!
carne de panela do rabo do touro

Depois de comer permanecemos ali intercambiando comentários espirituosos à respeito de nossos hábitos culinários, nossos costumes e traços de caráter. De vez em quando um raio de sol se esgueirava por entre os guarda sóis e incidia sobre as taças de vinho criando uma atmosfera de esplendor.

As crianças serpenteavam rindo por entre as mesas, os músicos circulavam atendendo pedidos extravagantes. Tudo era generoso, sutil, suave, distendido...e eterno.

Havíamos perdido a noção das horas! Mas fomos  despertados pelo cronograma de Cronos e partimos para experimentar o “Salmorejo” e a tortilha  de batatas da Taberna Bar Santos - mais de meio século de existência, porém uma criança perto da sua vizinha, a Mesquita/Catedral de Córdoba (786d.c).

Tortilha  de batatas da Taberna Bar Santos

O “Salmorejo” é outro ícone culinário cordobes e se trata de uma sopa fria de textura cremosa feita com tomate, pão dormido, azeite de oliva extra virgem, sal e o onipresente alho. Em cima se salpicam jamón ibérico e ovo duro.Em Córdoba o “Salmorejo” se pode provar em qualquer parte, mas a tortilha de batatas, dizem, tem que ser a do Bar Santos. Ela fica exposta na barra de mármore branco como se fosse um enorme queijo colonial e é cortada em troços/fatias para ser servida como tapa, acompanhada pelo “Salmorejo.”

Um belo e apetitoso casal! É costume saborear esta “pareja” ao lado da Mesquita/Catedral aonde vários séculos e inúmeras pombas nos contemplam. Seguimos o caminho das pedras até chegar a uma escultura bela e significativa; Se trata de uma composição dinâmica aonde o avô passa um vaso de flores para o neto subido em uma escada amparada por uma parede branca com vasos azuis.  Ela nos fala sobre a infância e a velhice, a dedicação, o cuidado e a transmissão dos rituais através da convivência familiar. A cena sugere o ocaso e o frescor de uma existência. Tempos mágicos, sem dúvidas!

Tal escultura é a homenagem à tradicional festa dos pátios realizada todos os meses de maio e que neste 2021 cumpre o seu centenário. Fomos terminar o dia em um bar em frente a ponte romana (I a.c) que se estira preguiçosa sobre o rio Guadalquivir , picamos batatas bravas e frutos secos, bebemos mais um pouco de cerveja Cruzcampo, Alhambra e San Miguel.



E já no crepúsculo, conversamos sobre o tempo e coincidimos que o passado individual é um relato que permanece vivo na memória, e é reinterpretado por nós conforme a situação emocional vivida no presente. Nada mais verdadeiro, neste exato momento!! Acho  que cada vez mais gente suspeita que não é a quantidade do que vivemos e sim a qualidade dos momentos vividos que determinam aquilo que os gregos chamavam lindamente de “Eudaimonia”, ou desabrochar humano.


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