27/03/2022 às 17h17min - Atualizada em 27/03/2022 às 17h17min

Negroni: Cento e dois anos do clássico

- Papo Sabor
Shirley Legnani – Revista Gula
Shirley Legnani – Revista Gula


Você Sabia?

Quando o conde Camillo Negroni atravessou a praça Vittorio Emanuele (hoje praça da República), em Florença, em direção ao Café Casoni, na Via Tornabuoni, numa tarde que parecia comum nos idos de 1919, não sabia ainda. Mas estava, a cada passo firme que dava em direção ao bar, disposto a criar, mais do que história, uma lenda.

Ao chegar, o  conde sentou-se no balcão e engatou uma conversa com o atendente do bar, Fosco Scarselli. Camillo Negroni costumava pedir o coquetel que era mania nos bares florentinos, o americano (mistura de campari, vermute tinto e soda).

Neste dia, o conde queria outra coisa. Algo mais forte. E desafiou o barman a criar um novo drinque. Scarselli resolveu substituir a soda do americano por London Dry Gin. Submeteu a bebida à apreciação de Camillo. Que sem pestanejar, aprovou o coquetel. Diante do sucesso, o barman resolveu batizar a nova invenção com o nome do conde. Nascia ali um dos mais famosos drinques de todos os tempos: o Negroni.

De sabor forte e marcante, o drinque logo ganhou fama em Florença. A receita foi espalhada pelo próprio conde, cliente assíduo dos bares locais.

E quando viajava, Camillo fazia questão de pedir onde fosse o drinque nos balcões da vida. Não demorou para que o coquetel atravessasse as fronteiras da Itália e conquistasse o mundo.

O sucesso foi tanto que a família decidiu fundar a destilaria Industria Liquori Negroni em Treviso, na Itália, e produziu uma versão pré-fabricada da bebida, vendida como Antico Negroni 1919.

A abertura do mercado norte-americano veio através de Orson Welles, que provou a bebida quando trabalhava em Roma para o filme Cagliostro, em 1947, e falou dela em um artigo para o jornal norte-americano Coshocton Tribune.




Em pouco tempo, o Negroni tornou-se referência obrigatória nas cartas dos bares. E desde então, é assim. E, mesmo com o amargor característico da receita, agrada tanto aos homens quanto às  mulheres, afinal, foi-se o tempo em que as integrantes da ala feminina só bebiam coquetéis adocicados e decorados com “guarda-chuvinhas”. “Mesmo com os modismos de algumas bebidas, como o gin tônica, o Negroni nunca é esquecido”, diz o bartender Laércio Zulu, do Candeeiro Bar, localizado no bairro paulistano Jardins.

O Drink faz 102 anos para comemorar essa criação,em 2020  muitos bares fizeram ações e releituras da receita tradicional, que mantiveram nas cartas mesmo após a festa. Um deles foi o Baretto, bar do Hotel Fasano, em São Paulo, que incluiu quatro versões do Negroni criadas pelo barman Valter Bolinha. E uma delas é bem abrasileirada – o Negroni Brazilian Style com Campari, cachaça envelhecida, Lillet Blanc e 4 gotas de angostura. Deliciosa!

Mas criar versões diferentes do Negroni é um exercício quase tão antigo quanto a própria bebida. Uma das subversões mais famosas é o Negroni Sbagliato, onde o gin é substituído por espumante. O Negroski é a versão em que a vodka entra em lugar do gin. Há também quem tenha criado uma versão com uísque (ou bourbon), a Boulevardier. No Japão, o saquê entrou em lugar do gin para a criação do Negroni Japonês. Já em Portugal, há duas versões com vinho do Porto: em uma delas, a bebida entra em lugar do gin. Na outra, vinho do porto branco seco entra em lugar do vermute. E até o diretor de cinema Luis Buñuel, na autobiografia que escreveu (O último suspiro), garante ter inventado uma versão do clássico, batizada por ele de Punt e Mes Negroni, em que o Punt e Mes é usado como vermute, gerando uma bebida mais amarga do que o coquetel original.

Mas para os puristas e amantes do Negroni, nada substitui a versão original da bebida. E o que cativa é justamente a simplicidade e o equilíbrio. Para fazer, é muito fácil: 30 cl de gin, 30 cl de Campari e 30 cl de vermute tinto. Gelo no copo, uma rodela de laranja (há quem use apenas uma fatia da casca) e voilà: está pronto.
 

 
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