05/01/2021 às 22h30min - Atualizada em 05/01/2021 às 22h30min

Brasil se destaca no mapa-múndi da olivicultura

São mais de 70 marcas de azeite extravirgem produzidos no Brasil e muitos prêmios em competições internacionais. Na última década, a olivicultura cresceu expressivamente no país, sobretudo no Rio Grande do Sul e na região da Serra da Mantiqueira, além do cultivo em Santa Catarina, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Sandro Marques

 Como identificar as principais variedades produzidas no Brasil e qual é a qualidade dos azeites no território nacional?

Para responder essas e outras perguntas, o escritor e degustador de azeites Sandro Marques lança o Guia de Azeites do Brasil, que neste ano, na sua terceira edição, passa a ser intitulado: Extrafresco: O Guia de Azeites do Brasil. “É uma alusão ao azeite que cruza o Brasil em um dia e é servido extrafresco: mais aromático, mais saboroso e melhor para a saúde”, enfatiza o especialista.
 
Com a experiência de quem é jurado de prestigiadas competições internacionais de azeite, Marques degustou mais de 90 amostras de azeite de oliva produzidos no Brasil para escrever o guia, que será lançado no mês de julho e já está disponível em pré-venda. O Guia, diz, se propõe a explicar, de forma clara e criativa, desde o cultivo até as técnicas culinárias, ilustrado com infográficos.
 
Outra atração é uma seção dedicada a receitas, divididas em saladas e sopas, pratos principais, sobremesas e pratos brasileiros. “Fomos além das receitas e pesquisamos também as técnicas culinárias que fazem uso do azeite. As receitas foram testadas por uma equipe de cozinheiros profissionais. Todas têm dicas de harmonização com azeite, onde comprar e a história de cada produtor”, conta.
 
O cultivo de azeitonas vem crescendo no Brasil. Em 2019, a safra atingiu o volume recorde de 1,4 milhão de toneladas, enquanto a produção de azeite foi de 240 toneladas, conforme dados do Instituto Brasileiro da Olivicultura (Ibraoliva).
 
Já em 2020, a safra de azeitonas no país sofreu com as intempéries do clima e a produção de azeitonas ficou quase 60% menor em relação à safra passada. No entanto, Marques revela que a qualidade não foi prejudicada.
 
“Percebo que temos avanços em relação aos anos anteriores e aprendizados a serem processados. Há muitos produtores que dominaram a extração, ou souberam se valer de profissionais que sabem fazer isso, e mantiveram um padrão internacional do seu azeite, que deve se refletir nas premiações”, afirma.
 
A qualidade de um bom azeite não é determinada somente pela azeitona. Um detalhe importante é o cuidado na hora da colheita e o processo de fabricação do azeite. A olivicultura no Brasil, apesar de ter uma produção de qualidade reconhecida internacionalmente, ainda enfrenta algumas dificuldades.
 
“A olivicultura no Brasil é uma corrida de obstáculos. Tem que conhecer bem a sua terra, tem que escolher as variedades corretas. Aprender ano a ano como fazer o controle fitossanitário e como aumentar a produtividade e conviver com a instabilidade do clima, além de encontrar canais para escoar a produção”, ressalta Marques.
 
Com a expertise de quem é membro da Organizzazione Nazionale Assaggiatori Olio D’Oliva, na Itália, Marques pontua que, como a safra varia e, às vezes, o volume de produção é baixo, em alguns anos, há produtores que só extraem azeite para consumo próprio. Porém, ele mantém todos no guia:
 
“Isso porque por trás de todo olival tem sempre uma história de sonho e o desejo de deixar um legado. São essas histórias que eu busco contar. É bastante trabalhoso fazer a lista completa, já que não há cadastro consolidado dos produtores. É um trabalho feito o ano todo, de contatar o produtor, quando possível visitar a propriedade, conhecer a sua história.”
 
Marques lembra: “Em 2019, estive na Itália, Portugal e Grécia para participar de congressos, encontrar outros especialistas e conhecer produtores locais. Fico orgulhoso de ver que, com muito esforço e empreendedorismo, os produtores brasileiros conseguiram colocar o Brasil no mapa do azeite mundial. Por onde passei, todos queriam saber mais sobre nossos azeites.”
 
Olivoturismo
 
O Olivoturismo vem ganhando cada vez mais espaço no setor, estando presente em vários empreendimentos de olivais estados, sobretudo na Serra da Mantiqueira, São Paulo (região de Campos de Jordão) e no Rio Grande do Sul. Por isso, o assunto recebeu uma atenção especial do autor no Guia do Azeite Brasileiro. Seguindo os passos da vinicultura e o turismo fomentado pelas rotas dos vinhos, o olivoturismo ainda é tímido no Brasil, mas, começa a ganhar fôlego e se expandir pelas regiões produtoras.
 
Essa tradição de vinho e azeite tem legados e histórias que agora ganham forma, integrando rotas turísticas nas regiões produtoras do Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais, principais estados produtores de azeite no Brasil. No Rio Grande do Sul, por exemplo, foi instituída por lei, em 2019, a Rota das Oliveiras, que compreende 24 municípios responsáveis por 32 marcas de azeite.
 
Na seção de olivoturismo, estão listados os principais empreendimentos que começam a investir e unir o azeite, turismo e gastronomia, como detalha Sandro. “Azeite é mais que um condimento. É uma cultura, um jeito de ser e contemplar a natureza. Isso é valor para o turista e é importante do ponto de vista econômico para o turismo interno”.
 
Aproveitando o clima de turismo e gastronomia, o guia tem até uma playlist de músicas brasileiras, selecionadas especialmente pelo maestro Gil Jardim, da Orquestra de Câmera da USP, disponível no Spotify.
 
No prefácio do mais novo guia de azeites brasileiros, as palavras da restauratrice Cristiana Beltrão e no posfácio, as do presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura, Paulo Marchioretto.

Top 10 Azeites Brasileiros

 

Casa Mantiva – Os proprietários decidiram, além de produzir leite, cultivar oliveiras, mas com uma regra: todo o processo deveria ser acompanhando diretamente por eles mesmos, garantindo a qualidade do plantio até a extração do azeite. O olival com 8 mil árvores está integrado à produção de queijo e de lúpulo e foi implantado para atender ao desejo de exercer uma atividade que integrasse benefícios ambientais, econômicos e sociais para a região.

Borriello – Os azeites Borriello receberam em 2018 o troféu “Incentivo à Gastronomia Mineira Eduardo Frieiro”, concedido pelo Governo de Minas. O reconhecimento vem pela dedicação e empenho que o casal Mario Borriello e Carla Retucci colocam em seu negócio. O pomar foi implantado em 2007 e desde as primeiras extrações vêm produzindo um azeite que, além de conquistar diversos prêmios, está presente no Floss Olei, o mais prestigiado guia italiano.

Prado & Vazquez – A Fazenda Cauré conta com 15 mil oliveiras que chamam a atenção por sua disposição e identificação meticulosa. O lagar é próprio, vem sendo ampliado e o proprietário tem buscado aperfeiçoamento constante, com a consultoria de especialistas portugueses. É um dos poucos produtores que comercializa o monovarietal maria da fé, uma variedade de azeitona originária da Europa mas adaptada ao nosso solo e hoje considerada brasileira.

Verde Oliva – É o único azeite brasileiro com o selo Demeter, que certifica a produção como biodinâmica. Esse tipo de cultivo tem uma série de semelhanças com a agricultura orgânica, mas utiliza também um calendário agrícola específico e a aplicação de compostos à base de minerais, plantas medicinais e esterco, que exige um conhecimento profundo do olivicultor sobre as especificidades da sua terra.

Rio Grande do Sul

RS Costa Doce – Vem chamando a atenção nos prêmios internacionais. O olival começou a ser implantado em 2013, em Dom Feliciano - RS, numa propriedade que já conta com outras culturas, e o lagar começou a funcionar em 2018, garantindo maior rapidez no processamento das azeitonas. O proprietário é descendente italianos e reuniu o espírito empreendedor com o gosto pelo azeite e a disponibilidade de terras com clima adequado para o cultivo.

Batalha – É um dos maiores produtores de azeite no Brasil. Seu objetivo é produzir azeite de qualidade com preço competitivo para poder estar presente em grandes redes de varejo. Além de incentivar e ajudar outros produtores, está construindo um complexo turístico em que os hóspedes poderão desfrutar da gastronomia local, com produtos oriundos do azeite, da criação de ovinos e vinhos da região. Os azeites da marca já podem ser encontrados em supermercados.

Verde Louro – Ganhador de três medalhas em Nova York este ano, é produzido na Fazenda Mato Grande, em Canguçu, em seu próprio lagar. O olival possui muitas variedades, incluindo manzanilla e picual, o que possibilita a elaboração de blends de boa complexidade. Além da qualidade do azeite, a marca destaca-se pelas elegantes garrafas importadas da França.

Olivas do Sul – A família Aued é uma das pioneiras na produção de azeite no Rio Grande do Sul, com pomares implantados desde 2006 e uma ampla experiência acumulada no cultivo, extração e também na produção de mudas de oliveira. Seu olival inclui variedades únicas, como as italianas moraiolo e leccino e a grega kalamata, própria para a produção de azeitonas de mesa. A região onde ficam os olivais possui uma das melhores condições climáticas do RS.


Foto: Divulgação 

O autor 

Sandro Marques é escritor, especialista em azeites, professor nos cursos de pós-graduação em Cozinha Avançada do SENAC e palestrante internacional. É editor do blog 1LA.com.br e membro da Organizzazione Nazionale Assaggiatori Olio D’Oliva, na Itália. Sua principal atividade é auxiliar os produtores a criarem sua narrativa para comunicar-se melhor com o mercado.

“O Guia de Azeites do Brasil”, “Um Doce de Princesa” e “O que Comem os Astronautas?”, além de palestrante e professor na área de Estudos da Alimentação, e jurado em SP e NY. Sandro vai nos mostrar como reconhecer um bom azeite, apresentando um panorama da produção brasileira e com direito a degustação de azeites nacionais que foram premiados no exterior.

 
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