25/03/2021 às 12h00min - Atualizada em 25/03/2021 às 12h00min

Os efeitos da profissionalização do sommelier de cervejas para o setor

Guia da Cerveja - Papo Sabor
Foto: Divulgação


Uma reivindicação histórica dentro do setor de cervejas artesanais será enfim atendida. A função de sommelier de cervejas vai ter o reconhecimento de profissão a partir de 2022, sendo incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério da Economia. A decisão animou os profissionais do segmento, que, consultados pela reportagem do Guia, a celebram como uma importante conquista.

Eles apontaram aspectos que poderão ser melhorados na atuação cotidiana a partir do reconhecimento do sommelier de cervejas como uma profissão. Neles, estão inseridos a uniformização, que poderá redundar em maior valorização da categoria, além da evolução da atividade, do aumento da credibilidade dos envolvidos na função e da chance de se ajudar na inclusão e democratização do setor.

“As demandas passam pelo reconhecimento efetivo no mercado, pela empregabilidade e pela valorização da atividade. Isso leva tempo, mercado e profissionais em franco amadurecimento”, argumenta Cilene Saorin, sommelière, mestre-cervejeira e diretora de educação da Doemens Akademie para América Latina e Península Ibérica, lembrando que a profissão surgiu no mundo apenas em 2004.

“É uma profissão extremamente jovem aqui no Brasil. Penso que a principal demanda é o reconhecimento por lei dessa profissão e por conseguinte, uma uniformização, o que facilitará o exercício do trabalho e maior unidade entre os profissionais até para se buscar políticas públicas e maior valorização da categoria”, acrescenta a sommelière Sara Araújo.

Ivan Tozzi aponta que a profissão tem uma série de desafios, que começam na sequência da formação, com a dificuldade de se encontrar um emprego. E destaca que a busca por melhorias coletivas, como a adoção de um piso salarial, se torna mais factível a partir de agora.

“O que precisamos é aproveitar essa oportunidade para nos organizar enquanto profissionais e exigir pisos e melhores condições para atuação real”, afirmou o sommelier e fundador da Three Hills Cervejaria, também avaliando que pode haver mudanças positivas na grade curricular da formação desse profissional.

Tozzi avalia que tornar o sommelier de cervejas uma profissão a validará e vai trazer credibilidade para quem atua na área, além de exigir mais qualidade. “De repente, também possa levar a uma maior fiscalização de quem hoje atua levando o nome de sommelier, mas sem formação ou mesmo uma experiência necessária”, opinou.

Daniel Lima concorda que o reconhecimento do sommelier de cervejas trará visibilidade aos profissionais, resultando em oportunidades e credibilidade, o que pode exigir esse “rigor maior” no desempenho da função. “O reconhecimento de que existe essa categoria, digamos, empurra e abre espaços dentro da cadeia de alimentos e bebidas. Então, é importante no cenário brasileiro onde o número de cervejarias aumentou quase dez vezes em uma década. Não só para fazer essa interface com o consumidor, mas até para garantir que essa produção possa também ter o aconselhamento e a visão crítica de um sommelier de cerveja”.

Na visão da sommelière Natália Noronha, a inclusão também é um importante para toda a cadeia cervejeira, além dos próprios profissionais, trazendo mais segurança na decisão de se especializar e vislumbrar evolução na profissão. “Isso ajuda todo o setor, que vai poder contar com colaboradores cada vez mais capacitados e qualificados para a função”, argumenta a sommelière da rede Mestre-Cervejeiro.com.

Amadurecimento do setor

Cilene Saorin acredita que a profissionalização do sommelier de cervejas pode representar um passo importante para consolidar o segmento de artesanais no Brasil e da sua cultura. “Essa profissão tem se apresentado essencial na construção de um público gastronômico maduro em relação à cultura das cervejas. O reconhecimento da categoria ‘Sommelier de Cervejas’ no CBO é um passo importante na consolidação dessa profissão no Brasil”, diz.

De acordo com Daniel Lima, mais do que apenas o reconhecimento da profissão de sommelier de cervejas, a ampliação do mercado de trabalho e a melhoria das oportunidades passa pela necessidade de o setor de artesanais se tornar mais inclusivo, com a entrada das classes C e D no segmento como consumidores efetivos.

“A profissão está intimamente ligada com a ampliação do mercado. Então, se a gente não entender que essa classificação brasileira de ocupações vem para certificar e para tornar mais rigorosa e ao mesmo tempo mais criteriosa a atividade do sommelier de cerveja”, diz.

Para ele, essa inclusão passa, também, pela capacidade do sommelier de cerveja de se comunicar com quem ainda não faz parte do setor, o atraindo. “É uma relação dialética. Ao mesmo tempo, o sommelier vai ser formado e ter a medida que esse público se amplia. Mas, ao mesmo tempo, esse público que se amplia vai depender do sommelier de cervejas, não como uma elite, e sim como um discurso que possa abrir as portas das especiais para estes novos públicos”, explicou.

Entre as atribuições do sommelier de cervejas estão a organização de eventos de harmonização e degustação, elaboração de cartas de cerveja, acompanhamento da qualidade da bebida no ponto de venda, treinamento de equipes de atendimento e seleção de rótulos para distribuidoras e importadoras, além da orientação do consumidor para um consumo que priorize a qualidade.

Natália Noronha destaca que a função é criteriosa e exige do profissional uma visão generalista do setor, por envolver todos os passos da cadeia cervejeira. “Não é somente fazer avaliações sensoriais do produto, falar sobre cervejas e cultura cervejeira em geral, o que já demanda um conhecimento profundo. Mas, também precisa saber conduzir todo o serviço corretamente, controlar o manuseio de equipamentos (como chopeiras ou câmara fria). Basicamente, você está lidando com manipulação de um produto alimentício e entregar isso para alguém precisa ser seguro”, disse. “Algumas pessoas entram nessa área por gostar de beber cerveja, mas o dia a dia é muito diferente disso”, completou.

Já Sara Araújo avalia que o reconhecimento da existência de uma ocupação é um passo significativo, uma vez que hoje no Brasil, a única categoria de sommelier reconhecida por lei, é a do vinho, instituída em 2011. E lembra que ainda há passos a serem dados para a regulamentação da profissão de sommelier de cervejas.

“A CBO não tem caráter normativo e sim, classificatório. É bastante pertinente consignar que tudo é político e os próximos passos para regulamentação da profissão, terá que ser feita por lei, cujos trâmites passam pelas casas legislativas e é submetida à sanção do/a presidente/a da República”, ressaltou.

CBO centraliza, descreve e classifica todas as profissões do mercado de trabalho brasileiro. E para  a coordenadora de sommelieria da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), Fernanda Bressiani, a conquista reflete o momento de expansão do setor de cervejas artesanais no Brasil.

“De 2010 para 2019, o número de cervejarias passou de 226 para 1.209, de acordo com o Mapa. A quantidade de marcas e opções praticamente quintuplicou em uma década. O Sommelier de Cervejas tem um papel fundamental nesse mercado, já que faz a interface da produção com o consumidor. É um disseminador muito importante da cultura cervejeira. Portanto, esse é um reconhecimento para todos que integram essa cadeia”, comenta.

A titulação sommelier de cerveja – além de sommelier de cachaça e sommelier de saquê – será incluída com o código 5134-10, na família ocupacional 5134, que trata dos trabalhadores no atendimento em estabelecimentos de serviços de alimentação, bebidas e hotelaria.

 
 
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://paposabor.com.br/.
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Fale conosco pelo Whatsapp